Joyce Aksyonova e o Passado de Sua Mãe
Mãe e filha discutem por causa do quarto bagunçado: “Eu arrumo quando eu quiser”. Uma discussão doméstica aparentemente comum começa a revelar algo que Natália Svetlana preferia deixar no passado.
O quarto de Joyce Aksyonova parecia ter atravessado uma pequena tempestade.
Roupas estavam espalhadas pelo chão, duas blusas permaneciam sobre a cadeira da escrivaninha, um par de tênis estava separado — um perto da cama e outro quase debaixo do armário — e vários cadernos dividiam espaço com maquiagens, presilhas de cabelo, embalagens e pequenos objetos que Joyce jurava saber exatamente onde estavam.
A cama também não ajudava. O cobertor roxo estava parcialmente enrolado, dois ursinhos de pelúcia haviam caído no chão e uma enorme almofada permanecia atravessada no meio do colchão.
Para Joyce, aquilo não era exatamente uma bagunça.
Era apenas o quarto dela.
Para Natália Svetlana, sua mãe de 45 anos, dona de casa e responsável por manter praticamente tudo funcionando dentro daquela residência, a situação tinha outro nome.
🦋A discussão começa
— Joyce!
A voz de Natália atravessou o corredor.
Nenhuma resposta.
Natália ficou parada diante da porta aberta do quarto durante alguns segundos, observando a cena.
— Joyce Aksyonova!
Dessa vez, Joyce levantou os olhos.
Ela estava sentada na cama, segurando o celular com as duas mãos.
— O quê, mãe?
Natália apontou lentamente para o quarto.
— Você ainda pergunta?
Joyce olhou ao redor.
Olhou para as roupas no chão.
Para a escrivaninha.
Para a cama.
Depois voltou os olhos para a mãe.
— O que tem?
Natália arregalou os olhos.
— O que tem?
— É.
— Joyce, olhe para este quarto!
— Eu estou olhando.
— Isso aqui está uma bagunça.
Joyce deu de ombros.
— Nem está tão bagunçado assim.
Natália respirou fundo.
Ela já conhecia aquele comportamento.
Sempre que começava uma conversa sobre organização, Joyce encontrava uma maneira de transformar uma simples ordem em uma negociação internacional.
— Quero este quarto arrumado.
Joyce voltou a olhar para o celular.
— Depois eu arrumo.
— Não. Depois, não.
— Então mais tarde.
— Também não.
Joyce finalmente abaixou o aparelho.
— Então quando?
Natália respondeu imediatamente:
— Agora.
Joyce ficou em silêncio por alguns segundos.
— Agora?
— Agora.
— Mas eu não quero arrumar agora.
— Joyce, eu não perguntei se você quer.
A menina cruzou os braços.
— Mas o quarto é meu.
Natália colocou as mãos na cintura.
— O quarto é seu dentro da minha casa.
Joyce soltou um pequeno suspiro.
— Lá vem…
— Lá vem o quê?
— Esse negócio de “minha casa”.
— Porque é verdade.
Joyce levantou-se da cama.
— Mãe, eu vou arrumar.
— Ótimo.
— Quando eu achar que devo.
Natália ficou completamente imóvel.
Durante dois ou três segundos, parecia estar tentando decidir se havia entendido corretamente.
— Repita.
Joyce percebeu imediatamente que talvez tivesse ido longe demais.
Mesmo assim, sustentou a resposta.
— Eu disse que vou arrumar o quarto quando eu achar que devo.
— Quando você achar que deve?
— Sim.
— Joyce, você está falando sério?
— Estou.
Natália apontou novamente para as roupas espalhadas pelo chão.
— Você acha normal viver assim?
— Eu não estou vivendo no meio do lixo.
— Eu não disse lixo. Eu disse bagunça.
— Mas parece que você está falando como se o meu quarto fosse um depósito abandonado.
— Só falta colocar uma placa na porta.
Joyce quase sorriu.
— Muito engraçado.
— Eu não estou tentando ser engraçada.
Natália entrou no quarto.
Com a ponta do tênis, afastou delicadamente uma camiseta que estava no chão.
— Olhe isso.
— É uma camiseta.
— Eu sei que é uma camiseta.
— Então pronto.
— Não está pronta! Ela deveria estar dobrada dentro do armário.
Joyce respondeu:
— Eu vou usar de novo.
— Quando?
— Não sei.
— Então coloque no armário.
— Se eu colocar no armário, amanhã vou precisar tirar.
Natália fechou os olhos.
— Joyce…
— Estou só explicando.
— Não existe explicação para deixar uma roupa jogada no chão porque talvez você vá usar amanhã.
— Existe sim.
— Qual?
Joyce abriu um sorriso.
— Economia de tempo.
Natália tentou manter a expressão séria.
— Você acha que tudo é brincadeira.
— Não acho.
— Então comece a arrumar.
Joyce permaneceu parada.
— Agora?
— Quantas vezes vou precisar repetir?
— Mãe, eu estava fazendo outra coisa.
Natália olhou para o celular sobre a cama.
— Assistindo vídeos?
— Eu estava conversando.
— Pode conversar depois.
— Mas…
— Joyce.
A menina bufou.
— Você gosta de mandar.
— Eu sou sua mãe.
— Isso não significa que você precisa mandar em tudo.
A frase mudou o clima.
Natália permaneceu olhando para a filha.
— Eu não mando em tudo.
— Manda bastante.
— Eu estabeleço regras.
— Para você, tudo é regra.
— Porque dentro de uma casa existem responsabilidades.
Joyce caminhou até a janela.
— Você fala como se eu não fizesse nada.
— Eu não disse isso.
— Parece.
Natália diminuiu um pouco o tom de voz.
— Joyce, eu não estou dizendo que você não faz nada. Estou dizendo que precisa cuidar das suas coisas.
— Eu cuido.
— Isso é cuidar?
— Eu sei onde tudo está.
Natália riu, sem acreditar.
— Você sabe onde tudo está?
— Sei.
Natália apontou para o chão.
— Onde está o outro tênis daquele par?
Joyce olhou para um tênis próximo à cama.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Depois olhou para baixo do armário.
— Deve estar por ali.
— “Deve estar” não é saber.
— Mas está no quarto.
— Fantástico. Pelo menos sabemos que ele não viajou.
Joyce começou a rir.
Natália também quase riu, mas rapidamente recuperou a postura.
— Não tente mudar de assunto.
— Você que fez a piada.
— Joyce, arrume o quarto.
— Depois.
— Agora.
— Mãe…
— Agora.
✦O passado entra na conversa
Joyce voltou a cruzar os braços.
— Você também devia deixar o seu quarto bagunçado quando tinha a minha idade.
Natália ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Quando você era jovem.
— O que tem?
— Aposto que você também deixava tudo jogado.
— Joyce…
— Tenho certeza.
— Você não sabe como eu era.
— Exatamente. Por isso posso imaginar.
Natália balançou a cabeça.
— Não imagine demais.
Joyce percebeu uma oportunidade.
— Ah! Então eu acertei.
— Você não acertou nada.
— Acertou sim.
— Não.
— Mãe, ninguém nasce sabendo organizar tudo.
Natália ficou em silêncio.
Joyce continuou:
— Você fala comigo como se tivesse nascido arrumando cama, dobrando roupa e organizando armário.
— Claro que não.
Joyce abriu um sorriso de vitória.
— Está vendo?
— Ver o quê?
— Você também era bagunceira.
— Eu não disse isso.
— Mas também não disse que não era.
Natália olhou para a filha.
— Você devia ser advogada.
— Obrigada.
— Não foi elogio.
— Eu aceitei como elogio.
Natália caminhou até a cama e pegou uma das almofadas que estava caída.
Colocou-a sobre o colchão.
— Quando eu era mais nova, também cometi erros.
Joyce imediatamente respondeu:
— Eu sabia!
— Deixe eu terminar.
Joyce ficou quieta.
Natália continuou:
— Eu também deixei coisas para depois. Também achei que algumas regras eram exageradas. Também discuti com pessoas que estavam tentando me ensinar alguma coisa.
Joyce ergueu levemente a cabeça.
Agora estava realmente ouvindo.
— Então você entende.
— Entendo.
Joyce sorriu.
— Finalmente.
— Mas entender não significa concordar.
O sorriso desapareceu.
— Ah, mãe…
🦋O que Natália aprendeu com a vida
— A diferença, Joyce, é que eu aprendi com a vida.
A menina ficou olhando para Natália.
Natália falou com mais calma.
— Quando você é jovem, parece que algumas coisas não têm importância. Arrumar uma cama parece bobagem. Guardar uma roupa parece perda de tempo. Organizar uma mesa parece uma coisa pequena.
Joyce perguntou:
— E não é?
— Às vezes, é uma coisa pequena. Mas pequenas responsabilidades ensinam coisas maiores.
Joyce não respondeu.
Natália continuou:
— Você aprende disciplina. Aprende cuidado. Aprende que não pode simplesmente abandonar tudo e esperar que alguém resolva depois.
— Eu não espero que você resolva.
— Então resolva você.
Joyce fez uma expressão de quem havia percebido que a própria argumentação havia sido usada contra ela.
— Isso foi golpe baixo.
— Foi lógica.
— Foi golpe baixo com lógica.
Natália deu um pequeno sorriso.
— Pode chamar como quiser.
Joyce sentou-se novamente na cama.
— Eu só acho que você exagera.
— Talvez às vezes eu exagere.
Joyce arregalou os olhos.
— Você acabou de admitir?
— Não se acostume.
Joyce riu.
Natália prosseguiu:
— Mas existe uma razão para eu insistir.
— Qual?
— Porque eu já tive a sua idade.
Joyce imediatamente apontou para a mãe.
— Exatamente!
— E justamente por isso eu sei que deixar tudo para depois pode virar um hábito.
— Um quarto bagunçado não vai destruir a minha vida.
— Não estou dizendo que vai.
— Parece.
— Estou dizendo que algumas atitudes se repetem. Primeiro você diz “depois eu arrumo o quarto”. Amanhã diz “depois eu faço outra coisa”. Depois começa a acreditar que sempre haverá tempo.
Joyce olhou para o chão.
Natália percebeu que a filha estava pensando, mas resolveu não interromper.
Depois de alguns segundos, Joyce falou:
— Mesmo assim, você provavelmente fazia a mesma coisa.
Natália soltou um suspiro.
— Você não vai esquecer isso?
— Não.
— Imaginei.
— Aposto que a vovó também mandava você arrumar o quarto.
Natália desviou rapidamente o olhar.
Joyce percebeu.
— Mandava, não mandava?
— Isso não interessa.
— Interessou muito agora.
— Joyce.
— Ela brigava com você?
— Estamos falando do seu quarto.
— Isso é praticamente uma confirmação.
Natália começou a juntar algumas revistas que estavam sobre a escrivaninha.
Joyce observou.
— Não arrume.
Natália parou.
— Como?
— Você disse que é responsabilidade minha.
Natália colocou as revistas novamente no lugar.
— Tem razão.
Joyce sorriu.
— Outra vez?
— Não abuse da sorte.
As duas ficaram alguns segundos em silêncio.
Joyce olhou para as roupas espalhadas.
Depois olhou para a mãe.
— Mas você podia me dar mais dez minutos.
— Não.
— Cinco.
— Não.
— Três?
— Joyce!
— Dois minutos.
— Agora.
A menina soltou um longo suspiro.
— Você é muito difícil.
Natália respondeu imediatamente:
— E você é muito teimosa.
— De quem será que eu puxei?
Natália estreitou os olhos.
— Não comece.
✦A trégua dura pouco
Joyce começou a recolher algumas roupas.
— Está vendo? Eu estou arrumando.
— Porque eu mandei.
— Não.
— Não?
— Porque eu decidi que chegou o momento.
Natália balançou a cabeça lentamente.
— Impressionante.
Joyce colocou duas blusas sobre a cama.
— O quê?
— Sua capacidade de transformar uma ordem em uma decisão pessoal.
— É um talento.
— Um talento extremamente cansativo.
Joyce riu.
A tensão parecia ter diminuído.
Mas apenas por alguns segundos.
🦋Uma fotografia muda o rumo da história
Ao pegar uma caixa no chão, Joyce encontrou uma fotografia antiga caída atrás da escrivaninha.
Ela parou.
Natália percebeu.
— O que foi?
Joyce olhou para a fotografia.
Depois olhou para a mãe.
— Nada.
— Joyce.
— Nada, mãe.
— O que você encontrou?
A menina rapidamente colocou a fotografia sobre a mesa.
— Uma coisa.
Natália deu um passo à frente.
— Que coisa?
Joyce cobriu a fotografia com um caderno.
— Você não estava dizendo que eu precisava organizar?
— Estava.
— Então deixa eu organizar.
Natália desconfiou.
— Me mostre.
— Não.
— Joyce.
— É uma coisa velha.
— Joyce Aksyonova.
A menina deu dois passos para trás.
— Você fica muito séria quando fala meu nome inteiro.
— O que está embaixo desse caderno?
Joyce tentou esconder um sorriso.
— Talvez eu tenha encontrado algumas informações interessantes.
Natália cruzou os braços.
— Não sei do que você está falando.
— Tenho certeza que sabe.
— Joyce.
— Mãe.
— Mostre a fotografia.
Joyce abriu um sorriso travesso.
— Então é uma fotografia?
Natália percebeu imediatamente o erro.
— Você acabou de confirmar.
— Joyce, chega.
— Agora fiquei curiosa.
— Guarde isso.
— Onde?
— Onde você encontrou.
— Mas você acabou de mandar eu organizar tudo.
Natália fechou os olhos por um instante.
— Você consegue transformar qualquer conversa em uma confusão.
— Aprendi com a vida.
Natália abriu os olhos.
— Não use minhas frases contra mim.
Joyce riu.
— Por quê? São boas frases.
— Joyce…
A menina voltou a recolher as roupas, aparentemente obedecendo.
Natália permaneceu observando.
— Quero este quarto realmente arrumado.
— Sim, senhora.
— Nada de empurrar as coisas para debaixo da cama.
Joyce parou.
— Como você sabe?
— Porque eu também já tive a sua idade.
Joyce virou-se lentamente.
— Interessante.
Natália percebeu novamente que havia falado demais.
— Não tire conclusões.
— Cada minuto dessa conversa está ficando melhor.
— Para você.
— Muito melhor.
Natália apontou para o armário.
— Roupas dobradas. Tênis guardados. Escrivaninha organizada. Cama arrumada.
— Mais alguma coisa?
— O chão precisa ficar livre.
— Sim, chefe.
— E sem ironia.
— Aí você já está pedindo demais.
Natália tentou esconder um sorriso.
— Joyce.
— Está bem.
A menina começou a guardar as roupas.
Natália caminhou em direção à porta.
Antes de sair, virou-se.
— Vou voltar daqui a pouco.
— Pode voltar.
— E quero encontrar outro quarto.
Joyce respondeu:
— Outro quarto vai ser difícil. Só temos esse.
— Você entendeu.
— Entendi.
Natália deu mais um passo em direção ao corredor.
Então Joyce chamou:
✦O aviso antes de Natália sair
— Mãe?
Natália parou.
— O que foi?
Joyce estava segurando novamente a fotografia antiga.
O sorriso da menina havia mudado.
Agora havia curiosidade e uma pequena dose de provocação.
Natália olhou para a fotografia.
Depois olhou para Joyce.
— Guarde isso.
— Por quê?
— Porque estou mandando.
Joyce sorriu.
— Você gosta muito dessa frase.
— Joyce…
A menina levantou a fotografia um pouco mais.
— Então quer mesmo que eu arrume o quarto imediatamente?
— Quero.
— Sem negociação?
— Sem negociação.
— Sem cinco minutos?
— Sem cinco minutos.
— Sem deixar para amanhã?
— Joyce, eu quero este quarto arrumado agora.
A menina permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Natália já estava prestes a sair quando ouviu a filha dizer:
— Tudo bem.
A mãe respirou aliviada.
Mas Joyce ainda não havia terminado.
Ela observou a fotografia mais uma vez, ergueu os olhos azuis para Natália e disse com um sorriso cheio de mistério:
— Cuidado, mãe… eu sei coisas sobre o seu passado.
Natália parou imediatamente.
Olhou para Joyce.
Joyce olhou para Natália.
Durante alguns segundos, nenhuma das duas disse absolutamente nada.
O quarto continuava bagunçado.
A fotografia permanecia nas mãos da filha.
E, naquele momento, arrumar roupas e organizar a cama deixou de ser o maior problema daquela casa.
Personagens principais: Natália Svetlana, 45 anos, dona de casa; Joyce Aksyonova, sua filha.
Tema central: convivência familiar, quarto bagunçado, disciplina, juventude e segredos do passado.

One thought on “Série Joyce Aksyonova e o Passado de Sua Mãe: Arrume Este Quarto Agora”